sábado, 29 de agosto de 2009

A Educação

A Educação

A qualidade de uma sociedade pode ser medida pela forma como cria e educa as suas crianças desde a mais tenra idade. Poucos são preparados para ser pais e por isso a difícil tarefa de educar uma criança é uma sucessão de tentativa e erro. Não há educadores perfeitos, há educadores esforçados. Aprendemos com os erros que vamos cometendo, ouvindo experiências alheias ou lendo as pistas dadas pelos especialistas. A tarefa de educador é das mais difíceis e das mais abandonadas pelo colectivo — chamemos-lhe sociedade. Estado, ou o que quisermos. O investimento na educação deveria assentar na formação de pedagogos que começariam o seu trabalho junto dos pais e depois junto dos filhos. Parece-me incompleto um sistema educativo que se destina apenas às crianças e jovens e deixa de lado um trabalho com os seus pais. De que serve ensinar as crianças a ler e a escrever e depois iniciá-las na acumulação de saberes se nada se ensina aos seus pais sobre o essencial e relativo ao crescimento dos seus filhos? Quem ensina os pais a compreender os filhos? A conhecer as etapas da formação da personalidade, os diversos níveis de conflitos que acompanham o crescimento, como se desenvolve (ou inibe) a formação da auto-estima…? Não, de facto não se formam pais — tal ideia parece até estranha —, mas dever-se-iam formar pedagogos que ajudassem os pais. Neste aspecto, é de grande importância a pedagogia do erro, ajudando os pais a perceber de que forma evoluíram, corrigindo os seus erros e ajudando-os a transmitir a seus filhos que errar é parte integrante da condição humana e é no aceitar os erros e na tentativa de os corrigir e evitar a sua repetição que assenta muito do nosso processo de crescimento.

Mas esta formação de pedagogos e a sua intervenção não deveria ser efectuada de forma avulsa, mas organizada, fazendo parte dos sistemas nacionais de ensino. Ensinar a educar deveria ser a prioridade. Porquê? Porque é investir na “matéria-prima”. O grau de equilíbrio e de organização interior que tiverem os jovens de hoje determinará a qualidade da sociedade das próximas gerações. Mas pouco se investe verdadeiramente na educação — investe-se, sim, na transmissão de conhecimentos, que é basicamente o que se faz nas escolas. Educar é muito mais do que isto, é harmonizar o crescimento de cada ser humano com a sua vivência social, ajudar cada criança e jovem a integrar e organizar os conflitos (normais, porque humanos) entre a afirmação do seu “eu” e as regras e normas a que têm e terão de se submeter para viverem num colectivo.
É verdade que também não se ensina a amar e afinal de contas educar pressupõe muito amor, mas poder-se-ia relembrar aos pais a importância desse amor e, mais importante, o que origina a sua falta.

Esta educação de qualidade, a começar junto dos pais, seria tanto mais necessário quando o ritmo acelerado das economias torna, em termos de tempo disponível, os filhos concorrentes com os empregos dos pais, o que faz com que a educação dos nossos descendentes não sofra apenas de qualidade — como terá sido sempre ao longo da história — mas também de quantidade. O tempo disponível para acompanhar os filhos é cada vez menor. Vão surgindo multidões de crianças e jovens que crescem quase sozinhos, pois o tempo que passam com os pais é pouco, aquilo que estes lhes transmitem é pobre e as escolas que essas crianças frequentam são na sua grande maioria meros depositários de crianças e de jovens, transmitindo-lhes conhecimentos (e muitas vezes mal) e pouco mais.

Em muitos casos, pede-se tacitamente que as escolas substituam o papel dos pais na formação ou que sejam o “freio” que os pais já não conseguem ser para as condutas desviantes e perturbadoras de seus filhos. Aqui, tal como com os frutos, os “maus” contagiam os “bons” e não o contrário, potenciando um nivelamento geral por baixo. É neste enredo que as escolas e o sistema de ensino vão vendo o tempo passar.

Contrariar esta tendência é verdadeiramente difícil, pois, frequentemente e cada vez mais, os pais já não estão apenas numa luta pela carreira, por melhores salários, por melhores condições de vida, mas mesmo numa luta pelo emprego e pela própria sobrevivência. O ritmo económico, a preocupação estonteante e absurda pela eficiência não se compadece com pais zelosos, antes os penaliza na exacta medida em que as suas atenções para o seu trabalho forem reduzidas, em que as horas de disponibilidade para a actividade económica forem desviadas para outros objectivos, tais como os filhos. Uma criança criada sem os pais (ou com pais regularmente ausentes) procurará referências onde quer que elas estejam. Com a mesma força e tal como uma árvore, desenvolver-se-á da forma e com a inclinação que o vento lhe permitir. Se tiver sorte, encontrará referências apropriadas ao seu desenvolvimento harmonioso, mas se não tiver crescerá na mesma. De que forma? Provavelmente, juntando-se à longa fila dos que registam insucesso escolar, dos que não se conseguem sociabilizar, dos que não conseguem aderir a um mercado de trabalho.

Então, em nome da máxima eficiência, com pais hipotecados à competitividade, ou seja, à produção, e sistemas educativos paralisados pela gestão diária dos problemas que muitos dos seus alunos apresentam e que são ocasionados pela (falta de) educação que receberam, “produzem-se” cada vez mais jovens que irão encontrar muitas dificuldades em atingir um equilíbrio e uma maturidade que lhes venha a permitir desenvolver uma vida profissional estável ou mesmo entrar em harmonia com as regras básicas de convívio social. Desemprego potencial será o resultado, ou então trabalhos de baixo valor acrescentado e por isso de baixos rendimentos. Como um desempregado pouco consome e como a tendência, mantendo-se este estado de coisas, será de cada vez mais jovens virem a engrossar esta fila de pessoas de baixo rendimento (desempregados) ou então de assalariados de baixo valor acrescentado, ou seja, também de baixos rendimentos, os rendimentos totais disponíveis para consumo ressentir-se-ão no futuro breve, as vendas das empresas também (o que é óbvio) e por isso também os seus lucros. Na máxima procura do lucro presente, todos os agentes económicos estão fortemente a comprometer os seus lucros futuros, ou até mesmo a sua própria sobrevivência.
A acrescentar e não menos importante, teremos que considerar o aumento de jovens desorganizados socialmente que enveredarão pela toxicodependência, pelo alcoolismo ou mesmo pelo crime. Todos eles representarão custos económicos acrescidos — para além dos morais que não são quantificáveis — que terão de ser pagos por todos, seja de uma forma mais directa: impostos para pagar mais polícia, mais tribunais, mais centros de recuperação; seja de uma forma menos directa: abstencionismo ao emprego e menor produtividade dos familiares destes jovens, iniciativas económicas e investimentos que deixam de ser feitos por falta de condições de segurança, aumento de guetos,… Mais uma vez, a actual lógica económica está a fazer com que os seus agentes actuem contra si próprios, pois estes impostos futuros terão de ser pagos por todos.
Mas também muito haverá a dizer sobre um sistema que encerra das maiores e mais graves incoerências que o ser humano pode conceber — a mulher no trabalho e a disponibilidade para a maternidade. A maior parte das empresas não vê com bons olhos a admissão de uma jovem, pelo “perigo” de engravidar ou mesmo pelo facto de já ter filhos ainda crianças. Potencialmente, a mulher será absentista porque os miúdos adoecem; tem horas de saída porque alguém os tem que ir buscar à escola, o que na nossa sociedade é uma função essencialmente materna (essa e todas as outras que digam respeito aos filhos). E o maior “perigo” será o engravidar — além dos quatro meses de licença pós-parto, quantas vezes meterá baixa enquanto decorre a gestação?
Este é um problema levantado pelos homens, no seu mais absoluto e insensível machismo? Não sejamos hipócritas. Conheço muitas mulheres em posições de chefia que, quando se trata de admitirem funcionárias, agem exactamente com estes mesmos preconceitos. A única diferença é que são mais subtis, porque (”talvez”) se sentem mais culpadas. E estamos aqui perante outra das nossas maiores incoerências: produzir cada vez mais para, a prazo, termos cada vez menos consumidores. Cada criança que não nasce, para que a sua mãe possa manter o seu emprego, é nesta verdade nua e crua um consumidor que não surge. Mas há mais, cada criança que nasce num meio (que é o típico) onde o tempo que para ela resta é o residual, onde a atenção e a dedicação que os pais lhe dedicam estão (porque os dias continuam só com 24 horas) em directa competição com a dedicação aos seus empregos, é uma criança potencialmente carente. Que se saiba, por mais avançada que esteja esta sociedade, as crianças ainda não nascem com preocupações de manutenção de postos de trabalho e por isso a sua tolerância para serem criadas com pais ausentes não será das maiores.


Alberto Jorge Prata
Para onde vamos?
Lisboa, Plátano Edições Técnicas, 2001
Excertos adaptados
http://contadoresdestorias.wordpress.com/2007/08/28/a-educacao-um-olhar-sobre-o-mundo-actual/

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